PETR3 e PETR4 ajudam Ibovespa a renovar recordes com menor receio dos investidores em relação à gestão da estatal sob o governo Lula. Veja o que mudou na percepção do mercado

Se em janeiro, a percepção de investidores e analistas de mercado sobre o desempenho dos papéis da Petrobras ao longo de 2023 era pessimista, a realidade mostrou cenário contrário. Ontem a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, bateu um novo recorde histórico, pouco depois de a agência S&P elevar a classificação de risco do Brasil. Mas boa parte do bom desempenho do Ibovespa neste ano se deve à estatal de petróleo.

Com o ano próximo do fim, as ações da estatal já acumulam ganhos superiores a 60%, sendo uma das principais responsáveis por sustentar a alta de mais de 20% do Ibovespa no ano. O ativo é um dos com maior peso no índice. Até o fechamento de terça-feira, o principal índice da B3 acumulava alta de 20,15% em 2023. Segundo cálculos da Economática, sem os papéis da petroleira, a alta teria sido de 11,52%.

Os cálculos levam em conta um peso de 11,5% para as ações ordinárias (PETR3, com direito a voto) e preferenciais (PETR4, sem direito a voto) da estatal. Em pontos, o índice estaria na faixa dos 120.462 pontos, abaixo dos 131.851 do fechamento de terça-feira.

No ano, PETR3 sobe 69,57% e PETR4 avança 89,27%. Os papéis fecharam o pregão de ontem negociados a R$ 38,04 e R$ 36,25, respectivamente.

A dependência da Petrobras já foi maior ao longo do ano. Mas o rali da Bolsa em novembro, quando o Ibovespa apresentou seu melhor desempenho mensal em três anos, permitiu a recuperação de outros ativos do índice que estavam descontados.

Início do governo Lula foi de desconfiança

Após a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022, diversos bancos e corretoras chegaram a cortar a recomendação para os ativos da estatal diante dos receios de maior interferência por parte do governo na nova gestão.

Declarações críticas do próprio Lula e de seus aliados à política que vinha sendo implementada pela estatal anteriormente – com menor investimento e maior repasse de proventos aos acionistas – ajudaram a alimentar o sentimento de cautela.

Os agentes também tendem a não avaliar como positivo aspectos do passado da gestão da companhia durante os governos petistas, como investimentos em áreas que não se mostraram rentáveis, projetos paralisados e escândalos de corrupção.

O que mudou?

Aos poucos, no entanto, a percepção dos agentes começou a mudar e parte dos temores não se confirmou. A empresa seguiu pagando dividendos robustos, um de seus grandes atrativos para os investidores nos últimos anos, e sustentou geração de caixa considerada positiva.

O petróleo não disparou apesar das tensões geopolíticas o exterior e dos cortes de produção anunciados ao longo do ano pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), mas se manteve em patamares próximos aos US$ 80.

— Com a nova administração federal adotando uma postura menos intervencionista, os investidores se sentiram mais confiantes em relação à governança e à autonomia da empresa. Boa parte do mercado temia que a empresa alterasse consideravelmente a política de distribuição de dividendos. Na prática, isso acabou não acontecendo – destaca o analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima.

Além disso, a mudança na política de preços, que passou a não levar apenas em consideração as cotações do petróleo no mercado internacional e do dólar, foi avaliada como menos disruptiva do que se temia, ainda que gere incertezas sobre os agentes.

O sócio e gestor de renda variável da Mantaro Capital, Leonardo Rufino, destaca que o papel estava descontado no início do ano, o que favoreceu a valorização à medida que a percepção negativa do mercado foi amenizada.

— Não tem como falar da alta, sem considerar o ponto de partida. Compartilhávamos a preocupação e imaginávamos uma piora na gestão da empresa, mas nada que fosse muito radical. O que se mostrou desde a mudança na política de preços é que a Petrobras vendeu por muito pouco tempo com preços abaixo do mercado internacional e, agora, até está vendendo com prêmio — disse.

Incertezas seguem?

O desempenho no ano melhor do que o esperado não significa que as incertezas tenham desaparecido do radar. Receios sobre aumento de interferência por parte do governo com a indicação de aliados políticos para postos de comando, e a respeito do preço cobrado pelos combustíveis seguem na mesa.

Após comunicar que faria alterações em seu estatuto em outubro, os ativos chegaram a cair 6% em um único pregão.

Outra incerteza que segue pairando sob os ativos é o aumento de investimentos em áreas que não correspondem ao core business da empresa, como nos projetos de eólicas offshore.

A divulgação do plano estratégico para os anos de 2024 a 2028 ajudou a reduzir certas desconfianças dos agentes. Na época, o Goldman Sachs destacou que os números de produção de 2,2 milhões de barris por dia nos próximos dois anos eram conservadores.

Na avaliação do banco, os dados vieram em linha com as expectativas do mercado, e o anúncio do plano estratégico eliminou algumas desconfianças sobe o preço das ações.

O Goldman foi uma das casas que havia rebaixado a recomendação dos papéis da empresa após as eleições de 2022. No entanto, voltou a elevar as recomendações em junho deste ano.

— Ainda temos posição. Menor do que já foi. A ação já não está tão barata assim. Continuamos otimista, mas não é algo que salta tanto os olhos. A escala da Petrobras é muito desproporcional. É difícil ter algo a taxas de retorno muito baixas para prejudicar a empresa como um todo — afirmou Rufino sobre os receios a respeito do plano de investimentos.

Vale destacar que os papéis da Petrobras possuem liquidez elevada, sendo uma das portas de entrada para os investidores estrangeiros, outros grandes responsáveis pelo sucesso do Ibovespa no ano.

Esses players costumam optar por ativos que ofereçam porta de entrada para movimentos positivos, mas também de saída quando querem se desfazer dos papéis em momentos que julguem necessário.

— Em 2023, vimos a resiliência da Petrobras em um contexto de incertezas fiscais locais e instabilidade no cenário global. Em um período em que muitos investidores buscavam ativos mais seguros e líquidos, a Petrobras acabou se tornando uma opção confiável – destaca Lima.

O CEO da Box Asset Management, Fabrício Gonçalvez, avalia que há espaço para que o movimento positivo continue em 2024, ainda que em menor magnitude.

— No curto e médio prazo, acredito que os preços do petróleo possam seguir numa constante pressão, devido ao corte menor do que esperado pelo mercado na produção de países membros da OPEP+ e de uma demanda que é menor do que o esperado. Então, nós devemos começar um ano mais desafiador do que foi em 2023, porém se não houver interferência política, a Petrobras tende a prosperar.


Fonte: O GLOBO