Corajoso e "interdisciplinar", ele só precisa que os Celtics vençam mais um jogo contra o Dallas Mavericks para conquistar a liga pela primeira vez na carreira, aos 35 anos. Jogo 5 é hoje, às 21h30, em Boston

Caso não esteja se desenhando a maior virada da história dos playoffs da NBA, a noite de hoje representa a grande chance do Boston Celtics voltar ao topo da principal liga de basquete do planeta. Após abrir 3 a 0 na série melhor de sete — vantagem nunca revertida — contra o Dallas Mavericks, perdeu por 122 a 84 na última sexta-feira, mas terá o apoio de sua torcida no TD Garden — a partir das 21h30, com transmissão da Band e ESPN — para fechar a final e conquistar seu 18º título. Seria a inédita consagração para o jovem e arrojado treinador Joe Mazzulla.

São 35 anos de idade, talvez pouco para quem comanda a maior instituição do esporte, ao lado do Los Angeles Lakers — ambos possuem 17 troféus —, mas o mais jovem treinador da NBA apresenta credenciais muito peculiares para quem assumiu o cargo há apenas duas temporadas. A filosofia de jogo baseada em elementos como tomadas de decisão rápidas, muitas tentativas de bolas de três e uma distribuição mais espaçada de seus jogadores na quadra compõem o que muitos apelidaram de “Mazzulla Ball”.

Autoconfiança

A construção dessa mentalidade não vem apenas do tempo como técnico principal. Mazzulla jogou apenas no basquete universitário, onde se lançou no banco de reservas já no começo dos anos 2010. Após se destacar em faculdades da segunda divisão, recebeu a oportunidade de se juntar aos Celtics como assistente em 2019. Assim, fez parte do grupo vice-campeão na temporada 2021/22 e viu de perto o processo de maturação do elenco, encabeçado pelos alas Jayson Tatum e Jaylen Brown.

Uma polêmica interna acelerou sua meteórica e incomum ascensão até a prateleira mais alta. O então técnico Ime Udoka se envolveu em um relacionamento íntimo com uma funcionária em setembro de 2022, acabou suspenso e, posteriormente, demitido, por violar as diretrizes internas da franquia. Havia chegado a vez do assistente.

— Sempre acreditei que seria um técnico da NBA. Nunca perdi a confiança em mim mesmo. Mas não sabia que ia acontecer tão rápido. Além disso, não imaginava que isso aconteceria em Boston — afirmou Mazzulla, em dezembro daquele ano. — Mas senti que aconteceria em algum momento. Pelo menos, tinha esperança de que daria conta do serviço.

Resumo das finais da NBA na temporada 2023/24 — Foto: Editoria de Arte

Firme no discurso, demonstrou que não sentia a pressão do cargo e tinha tamanho para recuperar a confiança de uma equipe com muito potencial. A efetivação veio já em fevereiro de 2023, um voto de confiança mútuo, pois o técnico havia recusado propostas para assumir outros times da NBA.

O resultados são inegáveis. No primeiro ano, foram 57 vitórias e 25 derrotas na temporada regular, e queda apenas na final da Conferência Leste, o último passo antes da decisão. Em 2023/24, a melhor campanha da liga, com 64 vitórias e 18 derrotas, e um título que se encontra a um triunfo de distância.

Múltiplas inspirações

Sobretudo, Mazzulla se tornou um personagem ainda mais intrigante por demonstrar uma visão "interdisciplinar" entre esportes. Neste ano, revelou ser grande fã de Pep Guardiola, treinador do Manchester City, e disse perceber muitas semelhanças entre o basquete e o futebol. Isto rendeu um encontro entre os dois na Inglaterra, e a visita do catalão a Boston para assistir ao jogo da 1 das Finais.

— Para mim, o basquete tem os mesmos princípios que o contra-ataque no futebol. Estudo muito o City e o Pep. Ele é o melhor treinador de todos os esportes. Teve uma influência muito marcante em mim — declarou ao The Athletic.

Joe Mazzulla visitou Manchester em fevereiro de 2024 para conhecer Pep Guardiola — Foto: Divulgação/Manchester City

Na semana passada, Tatum também revelou que Joe, praticante de artes marciais e fã de UFC, usa vídeos de lutadores para motivar os jogadores e reforçar a necessidade de foco. No momento que o time sofreu a primeira derrota na série, será importante ter a cabeça no lugar para não deixar a pressão se instaurar e o título escapar.

Apesar de presença constante nas fases mais agudas dos playoffs da NBA nos últimos anos, os Celtics passaram a ser taxados negativamente por não conseguirem "finalizar o serviço". O último título foi na temporada 2007/08. Hoje, porém, sob o comando do fenômeno de Mazzulla, Boston pode, enfim, voltar a sorrir.


Fontte: O GLOBO